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4/01/2014

Porque parei de escrever.



Não precisa me pergunta porque não escrevo mais. Ou não escrevo como antes. Vou tentar explicar.
Inspiração? também. Mas a verdade é que nem me esforço.Perdi a vontade de contar história, levantar hipóteses, questionar, sofrer em cada linha, dividir meus sentimentos com o mundo.
Pensar demais é sofrer. E eu passei muitos anos da minha vida pensando demais e escrevendo demais.Não saber de nada ou saber o suficiente,  é ser menos infeliz e eu escolhi assim : ser menos infeliz.
Essa semana, durante uma troca de e-mails, li o seguinte : " (...) aceite sem questionamentos.Há coisas que não devemos tentar entender, simplesmente aceitar". E sabe o que entendi, além de tudo que era pra entender? que isso é um sinal.Sinal que quando eu ameaço voltar ao confronto com o inexplicado, só tenho a perder.Melhor desencanar e isso faz um sentido absurdo pra quem escreve.Quem escreve, prefere entender tudo ou tentar entender alguma coisa, escrevendo ( dããaa) - É escrevendo que colocamos os pensamentos em ordem, desembaralhamos conflitos, desabafamos, jogamos ideias contra a parede.
Pessoas extremamente sensíveis são venenosas a si mesma.Não ferimos uma mosca.Mas nos ferimos como ninguém. E ser masoquista numa altura dessas da vida, não dá.Eu não quero mais, e mais do que querer, preciso não me ferir. 
"Fabi, sinto falta suas crônicas românticas e de relacionamento" - Obrigada mesmo! Mas eu não.Eu sinto falta de amar alguém, mas não sinto falta da dor que inspirou as coisas mais bonitas que modestamente escrevi. Dor de amor só serve pra fazer você escrever coisas tristes/bonitas. E eu definitivamente, tô cansada de tudo que é contraditório num nível assim. Triste e bonito só tem valor no papel ou na tela do computador. 
Pra ser sincera, essa birra não é só com o amor romântico. As pessoas de forma geral começaram a me deixar com preguiça. É muita mentira, muita maldade. As pessoas não são quem dizem ser ou fazem parecer que são.E eu me recuso ficar divagando sobre isso, buscando justificativas ( se é que existem ).
Então, vou fazendo de conta.Deixo na base da superficialidade, que é onde os relacionamentos hoje em dia conseguem chegar. O que é importante, deixo guardado ou se é pra resolver,  resolvo na surdina.
Quem sabe num outro momento.Um outro eu.Num outro tempo.Um outro amor.Quem sabe...Por enquanto, é uma bobeira aqui, uma futilidade acolá e todo resto, guardado e estático no coração.

2/11/2014

"Trago o amor de volta" - por Ivan Martins

Os postes de São Paulo estão cobertos de anúncios que prometem trazer seu amor de volta, com a possibilidade de uma amarração definitiva. Mãe Isso e Pai Aquilo garantem que a mandinga funciona em troca de uma módica quantia, que pode ser paga em até quatro vezes. Anote o telefone!
Apesar de me irritar com sujeira visual, não tenho em princípio nada contra esse tipo de propaganda. Desde tempos imemoriáveis as pessoas recorrem à magia para tentar consertar o passado e assegurar o futuro. Pagando por isso. Se cabras e galinhas não forem degoladas, eu não me oponho.
O que me incomoda intelectual e emocionalmente nas amarrações é seu objetivo. Ele me parece fundamentalmente equivocado. Por que trazer de volta quem nos machuca, em vez de nos ajudar a ficar livre do problema? Eis a questão.
Quem já passou por desastres amorosos sabe como funciona.     
Quando a pessoa que você ama vai embora, o mundo ao seu redor desaba. É difícil dormir, é pior acordar, comer torna-se um fardo e conviver um inferno. Nesses momentos de dor absoluta, em que a ausência do outro nos sufoca, somos capazes de coisas absurdas para ter de volta nosso objeto de desejo.    
Ligar, escrever, se humilhar, rastejar e pular nos braços de estranhos são apenas os primeiros movimentos da sinfonia. Lá pelo final da música, se nada funcionar, podemos nos encontrar de joelhos diante de Mãe Cidinha, implorando, com os olhos cheios de lágrimas - e um cheque na mão –, pela solução do nosso problema.
Se pais e mães de santo cuidassem de nossos interesses de longo prazo, fariam diferente. 
Olhariam nos nossos olhos encharcados e diriam, com a autoridade daquele voz de outro mundo, para esquecermos quem nos machuca e partirmos para outra. Em apoio sobrenatural ao nosso esforço, fariam um despacho com intuito de desamarrar nossos sentimentos de forma definitiva. O feitiço teria força suficiente para empurrar o ex-amor para bem longe da nossa vida. Onde já se viu trazer fantasma, encosto e morto vivo para dentro de casa? 
Se você está rindo, não deveria. A dor de cotovelo é uma das forças destrutivas do planeta. Diariamente, ela consome as energias de milhões de pessoas, em todas as geografias e idiomas. Pior ainda, é uma doença da qual muitos doentes não querem se livrar. Há gente abandonada que adota comportamento de viciado: sabe que “aquela pessoa” faz mal, mas corre atrás dela.   
É essa estúpida epidemia de masoquismo que os anúncios do poste alimentam. Eles oferecem a droga da esperança para quem ficou dependente de um amor que não existe. Deveriam?
Um dos momentos gloriosos das nossas vidas tão breves acontece quando deixamos para trás uma obsessão amorosa. Depois de meses ou anos tomada por outra pessoa, nossa mente enfim reencontra o prazer de estar em paz, sozinha. Retomamos a nossa vida e o prazer de desfrutá-la. As outras pessoas, que pareciam mortas, voltam a nos interessar. Em algum momento – sublime renascimento - a gente até se apaixona de novo, e ensaia a dança da felicidade.   
Tudo na nossa vida é medido com a régua do tempo. No caso do amor que deu errado, não é diferente: o sofrimento de ser rejeitado passa, uma hora passa, como todo o resto já passou. Mas quem disse que é fácil?
Eu me lembro – todo mundo lembra – como é difícil deixar de procurar alguém que se deseja. É desumano querer quando não nos querem. A gente lembra do rosto, pensa nos detalhes do corpo, quer a atenção daqueles olhos. Mas eles não olham mais para nós. E dói.
Algum tempo depois, porém, as coisas mudam. Aos poucos, mantida a devida distância e o silêncio, quem sofre esquece de quem faz sofrer. Lembra uma vez por dia, depois uma vez por semana, até que uma hora esquece. Ou quase. Numa manhã de domingo, vê o fantasma na rua e quase não se incomoda. A visão causa um pequeno rebuliço interior, mas aquele ser humano deixou de ser nossa catástrofe privada. Virou detalhe, como diria o Roberto Carlos. De alguma forma, passou.   
Por isso tudo eu acho que o pessoal que vende promessas no poste deveria mudar seu cardápio. Em vez de amarração, ruptura. Em vez de trazer, afastar de vez. Em vez de esperança, realidade.
Nossa vida é tão curta e potencialmente tão bonita que não merece ser gasta com quem não nos dá bola. Acreditar em amor não é correr atrás de paixões impossíveis. É procurar aquilo que faz sentido – sentimento correspondido, festejado, que, em vez de ocupar a nossa mente como doença, ocupa os nossos dias como prazer, romance e companheirismo.
Para proteger esse tipo de amor, vale espada de dragão, arruda e sal grosso atrás da porta, para tirar mau olhado. Só não vale amarração, por favor. Para nos fazer felizes, as pessoas precisam estar livres.   


** Sobre o autor : Ivan Martins é  Editor-executivo de ÉPOCA, Autor do livro Alguém especial, escreve em epoca.com.br às quartas-feiras. 
O cara é fera ! estou completamente apaixonada  por tudo que ele escreve.


2/04/2014

QUANDO A CEREJA VALE MENOS DO QUE O BOLO - Autoria : ÍLDIMA LIMA

Texto maravilhoso sobre beijo gay de amor à vida ! Confira :


Por íldima Lima

Dia desses, conversando à toa com minha amada avó materna, perguntei o que ela estava achando da novela. Ela, que sempre emite suas opiniões de forma certeira, disparou: “eu gosto... têm aqueles dois meninos que a gente fica torcendo que fiquem juntos, é um amor bonito, né? A gente até esquece que são dois homens...nem importa que sejam né? Importa o amor”.
A sabedoria nutrida pelo tempo, associada a uma certa pureza em viver num mundo muito veloz, com recursos e ferramentas tecnológicas que ela não domina e entende superficialmente, foi refletida naquela frase. Minha avó, no auge dos seus 86 anos, é uma mulher muito honesta. O que ela disse, da forma natural e quase desinteressada, resume perfeitamente o pensamento que tornaria o mundo um lugar mais respeitoso e melhor, mas não é isso que se vê. Se no inicio da novela fosse dito a grande parcela dos espectadores que o casal de maior destaque na trama seria gay e que no último capítulo haveria um beijo entre eles, possivelmente muitos não teriam assistido. Talvez os personagens fossem até incendiados logo no começo. Mas não sabendo, a chegar a este ponto, se surpreenderam torcendo para que isto acontecesse.
"Amor à vida" não foi de longe uma boa novela. Pecou pelo excesso de conteúdos mal desenvolvidos e principalmente quanto à abordagem pobre e equivocada de alguns temas importantes. No entanto, foi vitoriosa em um ponto: através da construção de personagens com apelo emotivo e forte empatia popular, proporcionou aproximação espontânea do público ao universo das relações amorosas entre pessoas do mesmo sexo.
Essa conversa foi anterior ao tão esperado e comentado beijo. E foi por conta disso que decidi escrever antes mesmo de saber se ele aconteceria ou não. Isso porque, muito claramente, o beijo não é o mais valoroso nesse contexto. O beijo é um ponto de exclamação que encerra uma frase, que compõe um parágrafo, de um texto bem elaborado neste sentido e com uma importância ainda maior. O caso de amor entre dois personagens do mesmo sexo alcançou relevância e simpatia de forma altamente significativa, com expressiva representação na luta contra o preconceito, haja vista o interesse das pessoas sobre o desfecho da história, identificado através dos comentários em redes sociais e entre amigos, posicionando-se em maior valor e importância acima do casal protagonista.


Sim, fico feliz. Comemoro que este tabu arcaico tenha sido quebrado. Senti uma vontade terna de estar na casa de cada espectador que, no seio de sua família, na farra com os amigos ou no silêncio acolhedor de sua solidão, acompanhou um beijo leve de 5 segundos seguidos de dois selinhos sutis trocados pelo casal. No entanto, para muito além disso, a importância desse par na novela não pode ser resumida a isto. O beijo foi sim apenas a cereja de um bolo com ingredientes singulares em teledramaturgia. A relação de amor estabelecida entre Félix e Niko teve um efeito muito mais devastador do que um selar de lábios. Ao trazer para o horário nobre da emissora com maior audiência no país as desventuras amorosas de um casal gay, o autor, a direção da novela e principalmente os atores, encurtaram radicalmente as distâncias entre o real e o imaginário relacionado às posturas e ao modo de vida dos casais homossexuais na contemporaneidade.

Quando se tem amigos ou parentes que vivenciam relações homoafetivas, este reconhecimento é natural e gera aproximação. Quando o véu do preconceito, espesso que é, cega e confunde a visão, estabelece-se como fato o que é suposição, aumentando gradualmente e algumas vezes de forma irreversível as distâncias. Afunda-se em razões criadas para manter ativa a ignorância e o estranhamento. Daí engessam-se opiniões e prevalece a violência.
No entanto, quando a ignorância e desinformação são reduzidas, irremediavelmente se reduz o preconceito. Este foi o feito ímpar de "Amor à vida". Trazer para o campo da normalidade o que já é normal, porém não é visto como tal por uma parcela social desinteressada em compreender o que lhe soa diferente e por essa razão habitua-se a reproduzir falas e posturas que lhe convenham. Duas pessoas com seus defeitos e virtudes, vivências e anseios, traumas e esperanças, que se amam, vivendo as incertezas e confirmações do amor. Qual estranheza há nisso?
Uma forte questão relacionada à homofobia é a imediata associação ao que é sexual. Quando se escuta alguém dizer: “João é gay” ou “João namora José” é quase imediata a formação de imagens mentais deste casal em cenas íntimas tórridas. Daí, em muitos, a repulsa e estranheza. Diferente, nestas pessoas, de quando se ouve: “João namora Maria”, imagina-se o casal em situações românticas de companheirismo e plenitude.
A novela, popular que é, transcendeu a questão do gênero e inseriu gradativamente o romance de três casais gays de maneira que sexual não fosse regra. Uma movida pela paixão (Félix e Anjinho), outra pelo companheirismo abalado por uma traição (Niko e Eron) e uma última movida pela construção do amor e seus adornos tão comuns a qualquer cidadão enamorado, favorecendo a resignificação do que é uma relação homoafetiva no imaginário daqueles que por ignorância, por escolha, por preconceito, por ódio ou qualquer outro sentimento avesso à essas relações tem estabelecido como referência.
O primeiro olhar, o prematuro desinteresse, o reencontro, o inesperado interesse, o medo da não correspondência, a aproximação, a revelação e, por fim, (leia-se, começo), o enlace. Não seriam essas, a grosso modo, etapas de construção de um relacionamento, do amor? E por que seriam diferentes e alheios a esta rotina os homossexuais? Mostrar isso, cativar as pessoas, fazer com que elas se percebam envolvidas e em seguida torcendo para que este amor dê certo são, definitivamente, aspectos mais significativos que um beijo.


Honestamente, gostaria de ter tido tempo de ter feito essa reflexão em forma de texto antes do burburinho instantâneo que esta ação ocasionou. Mas de alguma forma, sim, foi importante acontecer agora também. Olhar para o beijo foi importante. Um marco televisivo na luta contra o preconceito e um acréscimo à autoestima homossexual, sem dúvidas. Mas, quando damos um passo para trás e nos afastamos um pouco mais da cereja, começamos a ver o bolo por inteiro, percebemos que a cereja é apenas um detalhe, um detalhe bonito... mas um detalhe. Principalmente quando o bolo tem um aspecto, sabor e presença tão inédito quanto inesquecível.

Ah, e o que minha avó achou do beijo? Eu não sei. Não falei com ela ainda. Mas isso não importa. Como ela mesma disse: “ importa o amor”. Falar mais o quê?


Fonte : © obvious: http://lounge.obviousmag.org/
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12/23/2013

Minha Mensagem de Natal


É triste quando a gente tem o desejo de algo que deveria ser uma condição humana natural e simples- e não é. Desejar bondade ao semelhante é a maior prova que estamos no fundo poço. E é justamente isso que eu venho escrever às vésperas do natal. Desejar que você seja bom.Não hoje, não numa noite. Mas o ano inteiro. A vida inteira.
Me custa aceitar que a maldade existe, sequer aceitar que não tem mais limite. A coisa tá feia no nível matar pra acabar com o problema.
Como encontrar a paz num natal onde a memória que se tem é de gente que passa a perna na primeira oportunidade , que só lembra de alguém quando precisa, que não tem sensibilidade de se colocar no lugar do outro, que cuida da vida alheia como se lhe pertencesse, que sente prazer em fazer sofrer , caluniar, gerar discórdia e achar graça da desgraça de outro?!! 
Que você durma se reconhecendo imperfeito, mas tranquilo por ter feito o melhor ou tentado - que você trate de de viver a sua vida que é seu bem mais precioso, que evite brigar pelo que não vale à pena ou pelo que não lhe diz respeito. 
Que desperte pro que verdadeiramente importa e que é tão além desse acervo de futilidades que você coleciona, dos relacionamentos de verão, das coisas tolas que o dia à dia revela.
Que o seu natal seja o natal da consciência tranquila - de quem tem amor, de quem estende a mão, de quem não se vangloria do dinheiro,  do poder ou dos amigos influentes,  de quem não usa alguém como um objeto. O natal da gratidão e da generosidade.O natal do afeto declarado porque o amanhã é tão incerto quanto um sonho.
Um dia assim - pra celebrar Jesus, não faz o menor sentido de outra forma.Ou é do coração pra dentro, ou é uma farsa. Ainda dá tempo de nascer também, pra bondade e pra vida.Pense nisso e Feliz Natal.

Fabiana Borges

10/29/2013

Sobre finais de relacionamentos




"Porque um relacionamento termina" sempre será  uma espécie de grandes mistérios da humanidade. 
Finais são sempre tristes - de uma forma ou de outra. Quando se é famoso então, a coisa toma uma dimensão assustadora!  É preciso colocar a culpa em alguém pra entender ou tentar entender.E a culpa na verdade é todo mundo. 
Ninguém começa ou termina um relacionamento sozinho.As pessoas se desentendem, se afastam, fazem as pazes, se desentendem de novo e se separam de vez, por motivos que no final das contas, só elas sabem. A gente até supõe - a gente até ouve uma fofoca aqui, outra ali, dá pitaco, lamenta - mas é só na intimidade de um casal que a verdade acontece. Verdade essa, que inteira,  nunca saberemos.
Tenho pavor de apontar vilões em qualquer tipo de relacionamento, sobretudo nesses expostos na mídia - de gente que só conheço a capa. Não faço ideia de como vivem na intimidade - suas manias, do que são capazes. A vida real não é uma manchete de jornal. Até porque, se existe de fato um vilão, ele só existe porque alguém permitiu que ele tomasse forma, que magoasse- É assim com a gente, ou não é? A gente fica apaixonado e se permite sofrer e ser enganado, se entrega, fica bobo, se expõe, não liga de parecer ( ou ser ) ridículo- A paixão é assim desde que o mundo é mundo - doce, amarga e completamente sem sentido..Na minha vida e na da Grazy Massafera. Na vida de qualquer um!
Até partir dá um trabalho danado! Ninguém trai ou coloca pontos finais como se dobrasse uma esquina - e até quando você jura que fez isso, lá na frente, a vida vem e te mostra alguma coisa provando o contrário. É sofrido amar e não ser amado , é sofrido amar e saber que o amor não é tudo, é  sofrido deixar de amar também! Cada ferida tem sua característica e tratamento - mas todas  doem.
Portanto, muita cautela na hora de apontar o dedo. A regra é clara: a estrada por onde transitam os corações é sempre mão dupla. 

8/12/2013

Simplesmente - Por Tati Bernardi

Uma semana antes do meu ex namorado se casar eu fiquei sabendo que ele iria se casar. 
Já fazia uns quatro anos que a gente não se falava mas eu não aguentei e liguei pra ele. Eu não queria voltar, não gostava mais dele, não queria estragar nada. Eu só queria saber “como”. Fui tomada por uma curiosidade tão absurda que não poderia viver mais um dia sem saber “como”. Como? Eu perguntei, torcendo pra que o absurdo fizesse sentido a ele, que me conhecia tão bem. Porque a mim não fazia o menor sentido. E ele respondeu, me dando de presente, de novo, uma intimidade de compreensão que eu já nem lembrava mais que existia: simplesmente rolou. É isso? Então era só isso? Simplesmente rolou.
Então é simples? Aquilo sim me fez sofrer. Era simples. Amar era simples. Eu nunca tinha parado pra pensar nisso. Sequer tinha passado pela minha cabeça. Amar pra mim sempre foi o torpor, a berlinda, a coisa mais insuportável do mundo, a catapulta pra me lançar pra longe do próprio sentimento.Mas amar era simples.
Imaginei sua mulher, que era linda e agradável de imaginar, lendo um livro com fones de ouvido enquanto ele e seus amigos animalescos destruíam a sala vendo o jogo do Flamengo.Amar era simples.Por que raios aquilo me irritava tanto?Por que raios eu não pegava um livro, botava o fone, e era feliz? Era só um jogo, eram só alguns amigos meio bobos que daqui a pouco iriam embora. Era só uma corneta com auto-falante, maconha e cigarro brigando pra ver quem fazia meu nariz cair primeiro.Fora um ou outro som de pum. 
Imaginei sua mulher quieta num jantar chato, daqueles que ele começava a discursar sobre propaganda com uma lembrança invejável de datas e nomes de pessoas. E ela orgulhosa. Meu amor ama o que faz. Ele é um pouco mala, mas tudo bem. 
Feliz. Mudando delicadamente de assunto.Essa manteiga com ervas é incrível, amor, experimenta. Leve. Calando a boca dele com classe.Simplesmente rolou.
O amor era simples. Para ele e para uma meia dúzia de ex namorados meus que sempre encontro por aí, envoltos pela energia da simplicidade do amor. Suas mulheres grávidas. O cuidado pra atravessar a rua. Os almoços em paz. 
Um acordo qualquer que não me parece em nada deprimente ou sofrido quando os vejo por aí, exibindo a vida que acontece simplesmente. Simplesmente rolando pra todo mundo. 
Mas escuta, dá pra aturar um cara que nunca fala sério e faz piada de tudo? Mas escuta, dá pra aturar aquele outro que não lia nada desde o último sucesso do Harry Potter? E o mister agora tô no meu planetinha e você pode morrer se bater na porta? Dá pra aturar? Fora tudo aquilo que vem junto. Ciúme, saudade, raiva, dor, preguiça, bode e por aí vai. 
Alguém aturou. Todos eles. Todos vivendo suas histórias. E eu escrevendo textos as cinco da manhã. Porque a palavra “como” não me deixa nem dormir, o que dirá ser simples.




7/21/2013

Tudo que se quer.


Tudo que a gente quer é um amor do qual possa falar abertamente. Que nos encha de orgulho, que nos deixe envaidecidos da recíproca; que desperte nosso lado bom ; que sirva de referência para outros amores, que nos deixe dormir em paz, que nos afugente da ansiedade desenfreada- que não provoque a pergunta sem sentido ou sem reposta. 
O amor que faça o silêncio ser um bom lugar pra estar de vez em quando , e conversar o que se sente,  um bom lugar pra estar sempre.
Tudo que a gente quer, é um amor onde exista a certeza que opostos são bonitos no cinema e na aventura. Um amor onde a vida real transforma aquilo que se constrói na mesma direção e sonhos caminhem juntos. Um amor onde você é inteiro e de verdade. 
Um amor onde não se forje a felicidade nas redes sociais ou numa fotografia.Onde não acusem nossos desejos de utopia ou ilusão.
Tudo que a gente quer é um amor com cara de amor. Com todo clichê que só esse sentimento é capaz. Um amor onde a medida é não ter medida e não fazer disso uma vergonha ou coisa anormal.
Amor - de um jeito que um dia a gente posso admitir sem medo, que é exatamente desse jeito que se quer.

Fabiana Borges.

7/13/2013

Só isso - Por Fabrício Carpinejar


[...] Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente, trocar os talheres de um momento para outro. Qualquer coisa é admitida, menos que não ame com coragem.
Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo, de gosto, de opinião. Não se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente. Amar para valer, para dar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como “estou confuso”. Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Não desmarcar um amor pela amizade. Não esquecer de comentar pelo receio de ser incompreendido. Não esquecer de repetir pela ânsia da claridade. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar atrasado, com a respiração antecipando o beijo. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Amar decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio.
Amar com sofreguidão, não adiando o que é véspera. Amar não disfarçando as mãos, amar com os fantoches das mangas. Amar como uma canoa engatinha na margem, árvore deitada de bruços. Amar quase que por, por bebedeira, amar sem dizer por que ama. Amar desavisado, com vírgula entre o sujeito e o verbo. Amar desatinado, pressionando a amar mais, a amar mais do que é possível lembrar.
Amar com coragem, só isso.


5/04/2013

O direito de não gostar- Por Gabito Nunes



E esse é aquele tipo de texto que eu leio mil vezes e entendo perfeitamente.

Por Gabito Nunes.

Olha, eu não gosto de você. Pare de me procurar ou tentar chamar minha atenção. Eu poderia dizer politicagens como “o problema sou eu” ou “nós podemos ser amigos, se você quiser” ou “não é nada pessoal”, mas eu estaria apenas vestindo uma luva de veludo para te empurrar pra longe de mim. Eu não posso ser rude, mas também não funcionou muito bem ser sutil. Eu não gostei de você, e é extremamente pessoal. Sai do meu pé. Pare de me ligar. Já faz cinco meses, caramba.

Eu sei que nós saímos duas ou três vezes, mas é o que as pessoas costumam fazer quando estão procurando alguém pra se enroscar no inverno que vem, ou para todos os frios que vierem. Só que não adianta me telefonar trinta vezes ou vociferar frases de parachoque na minha caixa postal, apenas não deu liga. Dois ou três encontros não querem dizer nada, não comprometem ninguém, a não ser que você more na Arábia Saudita ou coisa assim. A boa notícia (ou má, ainda não sei) é que moramos numa metrópole, cheia de gente diferente indo e vindo, ofertas, escolhas, opções, ninguém mais permanece com alguém se não for por amor, ou sei lá, por algo mais. Algo que não aconteceu pra nós, poxa.

Tudo bem, pode vir com aquela ladainha de que eu sou machista, ou inseguro, ou insensível, ou medroso, ou superficial, ou nhê-nhê-nhê, ou qualquer sub-condição onde se alocam os rapazes que não gostam de você, eu juro não dar bola, pode repassar à sua mãe, sua amiga de infância, suas colegas de boliche, seu ouvido interno, eu não ligo, apenas me deixe não gostar de você em paz, sem essa batelada de agressões agravantes.

Não tem por quê. Porque não, ora. Como eu vou saber? Não fique procurando rastros, cavoucando regras e clichês sociais, sugando minhas desculpas. Olha, eu tenho uma fila de culpas para alimentar, você não vai conseguir me deixar mal por não querer você. Claramente você tem um lado bom e generoso, traços encantadores, chafarizes de prazer debaixo do seu vestido, e outras coisas que eu não tive paciência de esperar pra ver, mas isso não quer dizer que outro cara não vá se agarrar a essas suas ótimas faces, se você der uma chance a ele, uma outra chance para você mesma, ao invés de perder seu tempo comigo a fim de endireitar o seu ego.

O ruim desse jogo é que ninguém sabe direito as regras, não há uma assembleia ou coisa parecida, onde os praticantes decidem o que pode e o que não pode antes de estar valendo. Eu posso pôr o braço sobre seu ombro no cinema e depois decidir que não gostei de você? Eu posso ter um estilo de vida parecido, gostar basicamente do mesmo tipo de passeios e canções, e mesmo assim rejeitar seus telefonemas? Quantos encontros são razoáveis para determinar se isso vai dar em algum lugar ou não? Talvez seja legal organizar uma confederação nacional das pessoas que estão procurando um relacionamento; e pagando mensalidades, receberíamos treinamento específico para saber como lidar. Como ficar. Como seguir em frente. Como esperar sentado por um telefonema. Como superar uma humilhação. Agora fiquei confuso, não é o que fazem as revistas?

Ei, só porque eu não gostei de você, isso não significa nada. A minha percepção não resume o que você representa para o resto das milhares de pessoas habilitadas para te querer. Pra ser sincero, eu tenho o gosto muito duvidoso, um pouco esquisito até, incompatível com sua normalidade, seu comportamento e modo padrão de se vestir e pentear o cabelo. Você é legal, como uma piada mal contada ou requintada demais, que vai ver eu só não estava muito disposto a entender ou dar risada. Mas não deu pra notar na minha cara séria que eu não estava achando graça? Vamos fazer o seguinte. Continue procurando. Sei que eu vou.

7/29/2012

Como uma canção de Adele


Acabo de ouvir um conselho sobre a importância de assumir e reconhecer os próprios defeitos.Logo eu!
Eu que ao longo da vida sempre fui a maior crítica de mim mesma.Eu que supervalorizo meus erros como poucos fazem. Eu que sou esse arquivo ambulante de culpas e auto punições.
Não que exista algum mérito nisso.Fiscalizar-se todo tempo.Buscar em si a vilania das próprias histórias. Boicotar-se nas escolhas.Dramatizar como se fracassar ,dizer adeus ou perder, fossem mortes (e não são?) Chorar antes, durante e depois.
Pensar demais tem me feito um mal danado e não quero que isso se confunda com a própria vida , porque tudo que a gente quer é que viver faça bem e de alguma forma, que compense.
Nunca é fácil olhar pra dentro.Cutucar a própria ferida.Pior, não é fácil se reconhecer  autor dos próprios fracassos e desilusões, sobretudo aqueles que se referem aos afetos.
O palpável, o “técnico”, doem numa outra dimensão.Mas e a alma? Não entra em gaveta alguma, não tira férias, não descansa aos domingos, não conhece feriados.Aonde quer que eu vá ela vai junto, grita, exige, adoece..
Faz tempo que deixei de acreditar em méritos.Eu mereço um amor que nunca tive, um emprego que nunca tive, a atenção de alguns que nem sabem por onde ando e como ando.Mérito?Se tudo que vivo for realmente fruto de algum merecimento, então de fato  não reconheço meus defeitos, nem sei quem sou.
Sou uma decepção e não sei? Me recuso acreditar. Aliás, eu nunca vou acreditar !
Definitivamente, meus erros estão todos despidos diante de mim, e não contente, ainda os vejo com lentes de aumento.Carrego a ansiedade na veia.Não piso, dou saltos.Entre o que é certo e o que desejo meto os pés pelas mãos, demoro a aceitar o óbvio.Sofro pelo que não me diz respeito.Não respiro fundo antes de desabafar, rejeito o “deixar pra depois” e  nunca aprendi que a indiferença pode ser um tesouro.
O que realmente sei e sinto(e que infelizmente não faz muita diferença)é que meus defeitos  não são tão feios assim, não ferem aos outros como ferem aqui dentro, muito menos desumanos.E talvez, um tanto inocentemente, tente justificá-los em sua fonte ( o coração) e fazer disso, ou tentar pelo menos, minha maior ou única defesa. .
A verdade é que entre erros e acertos, me resta acreditar no que ainda não existe, como um milagre.Ou tenho uma outra escolha?.